13 de Outubro 2021 - Publicado há 11 dias, 5 horas e 20 minutos
Levantamento de peças de artilharia do fundo da Baía de Angra
location Angra do Heroísmo

Secretaria Regional da Cultura, da Ciência e Transição Digital

A Secretaria Regional da Cultura, da Ciência e Transição Digital, através da Direção Regional da Cultura (DRC), informa que, no passado dia 07 de outubro, teve lugar o levantamento de duas peças de artilharia, denominadas “berços”, do fundo da Baía de Angra do Heroísmo.

Esta descoberta surgiu na sequência das prospeções arqueológicas a cargo da ArcheoCélis – Investigação Arqueológica, Lda., no âmbito do acompanhamento arqueológico das obras de requalificação e prolongamento do Porto das Pipas, na baía de Angra do Heroísmo.

Na prospeção e avaliação das condições para o levantamento de uma primeira boca de fogo, detetada a cerca de 19 metros de profundidade, trabalho acompanhado pelo Diretor Regional da Cultura, Ricardo Tavares, que integrou a equipa de mergulhadores, constatou-se a existência de uma segunda boca de fogo. 

Da observação destas bocas de fogo, já em terra, confirmaram-se as expetativas de se tratar de peças de artilharia em ferro forjado, as quais, pela sua morfologia, indiciam constituir peças de carregamento pela culatra e montadas em reparos ditos “de pião”, datáveis dos finais do século XV, de utilização sobretudo naval. 

A elevada importância desta descoberta consiste em que estes dois “berços” são, pela tipologia e a datação, os únicos até agora encontrados no fundo do mar dos Açores.

As peças serão, agora, sujeitas aos procedimentos de conservação e restauro adequados a este tipo de objeto por parte do Museu de Angra do Heroísmo, onde serão incorporadas.

O emprego de artilharia embarcada em navios portugueses recua às primeiras décadas do século XV, antes ainda do início da navegação de alto-mar atlântica, com o objetivo de proteger a navegação mercante da costa portuguesa, principalmente a sul, das ações de pirataria e corso, bem como das razias às povoações ribeirinhas.

Rotas marítimas e povoações eram vigiadas por caravelas de pequeno porte, armadas com artilharia de ferro forjado. Sendo caravelas de pequeno porte, para que fossem rápidas e com boa capacidade de manobra, estavam necessariamente armadas com bocas de fogo mais leves e, por isso, de menor calibre do que as usadas em operações terrestres. 

Neste contexto, assumem particular importância as peças de artilharia de carregamento pela culatra e montadas num suporte giratório (“reparo de pião”), porque possuíam uma elevada cadência de tiro e podiam ser apontadas independentemente da manobra do navio.

A partir do início do século XVI, ainda no reinado de D. Manuel I, estas bocas de fogo foram substituídas por berços em bronze, dos quais existe um exemplar em exposição no Museu de Angra do Heroísmo, recolhido igualmente na baía de Angra do Heroísmo.

Assim, pela natureza destas duas peças, que testemunham o emprego deste tipo de bocas de fogo embarcadas nas rotas mercantes ou na defesa dos portos das ilhas atlânticas, e pela sua raridade, uma vez que, por serem em ferro, são raros os achados em contexto de arqueológico náutico em estado recuperável, este achado reveste-se da maior importância para o estudo dos primórdios da artilharia naval portuguesa e para a história militar das ilhas atlânticas.

© Governo dos Açores | Fotos: DRaC

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